A velejadora que completou a volta ao mundo sozinha aos 16 anos dedica-se hoje a expedições com adolescentes. Em passagem por Rio Grande, ela fala sobre a formação de jovens por meio da navegação.
Laura Dekker faz do mar o seu lugar no mundo. Nascida em 20 de setembro de 1995, na Nova Zelândia, durante uma viagem de sete anos ao redor do mundo num veleiro realizada por seus pais. Criada em contato com o mar, desenvolveu desde cedo a experiência e o interesse pela navegação.

Aos 13 anos, anunciou o projeto de dar a volta ao mundo sozinha, iniciativa que provocou uma batalha judicial na Holanda, onde vivia, devido às preocupações com sua segurança. Autorizada a partir, deixou Gibraltar em agosto de 2010 a bordo do veleiro Guppy, um Ketch vermelho brilhante de 40 pés.
Em 21 de janeiro de 2012, aos 16 anos, concluiu a circum-navegação em Sint Maarten, no Caribe, após 518 dias de viagem. Sua trajetória ganhou repercussão internacional e foi retratada no documentário Maidentrip, que utiliza imagens registradas pela própria navegadora durante a jornada. A experiência marcou sua trajetória e consolidou seu vínculo com a vida no mar.
Hoje, com muito mais de 113.000 milhas náuticas navegadas (os dados são de 2023), Laura continua dedicando sua vida ao mar, mas também forma novas gerações de velejadores. A embarcação que utiliza atualmente mantém o nome Guppy, em homenagem ao barco da primeira viagem, mas é um veleiro diferente: um Scorpio 72. Mais espaçoso, o barco atual é utilizado nas expedições de formação de jovens que integram seu trabalho.
Por meio da Laura Dekker World Sailing Foundation, que administra ao lado de seu parceiro, Sander Vogelenzang, ela promove programas de desenvolvimento pessoal e expedições de aventura para jovens de 8 a 16 anos. A bordo de um veleiro-escola, grupos de adolescentes participam de viagens que incluem travessias oceânicas e atividades voltadas à autonomia, à resiliência e ao trabalho em equipe.
Assim Laura transforma parte de sua experiência em uma oportunidade de aprendizado para outros jovens. A fundação recebe participantes com diferentes níveis de familiaridade com a vela. O processo de seleção começa com candidaturas por e-mail e inclui conversas por videochamada.
A proposta vai além do ensino técnico da vela. Durante as expedições, os jovens compartilham responsabilidades, participam das tarefas necessárias à rotina da embarcação e aprendem a tomar decisões coletivamente. O contato com diferentes culturas e estilos de vida amplia a experiência, enquanto a rotina a bordo favorece a convivência e a desconexão do mundo digital, segundo Laura.
Em dezembro de 2025 Laura e sua tripulação (Sander e seus 2 filhos de 6 e 4 anos) começaram uma jornada viajando para Nova Zelândia, Caribe, América do Sul e Ilhas do Pacífico. No momento estão realizando o trecho Rio de Janeiro – Ushuaia com nove adolescentes, com idades entre 13 e 16 anos acompanhando a jornada. E no meio desse percurso está Rio Grande, porto onde encontramos Laura Dekker.

Aportando no Rio Grande
Pela primeira vez em Rio Grande, Laura destaca a beleza da região, especialmente a natureza, a vida selvagem e a história local. Para uma velejadora cuja trajetória está diretamente ligada ao mar, conhecer novos lugares e observar as características de cada região faz parte da experiência de viajar.
A receptividade dos brasileiros também chama sua atenção. Laura relata que as pessoas que encontra no país têm sido gentis, “em todos lugares que fomos no Brasil as pessoas são tão boas, eu penso que isso deveria ser uma mensagem para o resto do mundo!”, reforçou ela. A acolhida local integra a experiência da viagem e reforça a importância dos encontros com diferentes comunidades ao longo das expedições.
A passagem por Rio Grande ocorre em meio a uma jornada que combina navegação e formação de jovens. No percurso até Ushuaia, os adolescentes têm a oportunidade de vivenciar a rotina de uma travessia, assumir responsabilidades e conviver em um ambiente no qual a cooperação é indispensável.
Ao falar sobre sonhos e projetos pessoais, Laura aconselha os jovens a não se deixarem paralisar pela opinião dos outros. Ela considera importante ouvir conselhos, mas ressalta que cada pessoa precisa seguir aquilo em que acredita.
“Siga seu próprio coração” é a mensagem que deixa aos jovens. Laura também destaca que não se deve ter medo de cometer erros, pois eles fazem parte do aprendizado e não representam o fim do caminho. Para ela, persistir diante das dificuldades é essencial para continuar tentando e transformar planos em experiências concretas.
A orientação dialoga com sua própria trajetória e com o trabalho que desenvolve atualmente. Depois de completar a volta ao mundo em solitário ainda na adolescência, Laura segue cruzando oceanos e compartilha com outros jovens a possibilidade de aprender por meio da navegação. Com a fundação, o mar continua sendo seu ambiente de vida e, ao mesmo tempo, um espaço de formação para novas gerações.